Por Valda Neves
Lastimo quem reduz a prostituição como um "trabalho
qualquer" e utiliza-se do argumento de que é a profissão mais antiga,
tentativa de naturalizar a opressão e de ignorar um mundo sem a prostituição. A
lógica patriarcal, que se retroalimenta do capitalismo, consiste na relação de
imposição de poder e no controle dos homens sobre o trabalho, o corpo e a
sexualidade das mulheres. Exemplo disto é, respectivamente, a divisão sexual do
trabalho colocando os homens nos espaços públicos de produção e as mulheres nos
espaços privados de reprodução; a garantia de regulamentação ao acesso do corpo
das mulheres e sua exploração; a imposição
heteronormativa ao dizer como exercer nossa sexualidade, a constante caça aos
diversos modelos de família e o formato de relacionar-se (monogâmico).
O sexo está ligado ao prazer entre xs envolvidxs, nunca à
humilhação e subordinação. Afirmo a necessidade do posicionamento contrário a essa
violência e a mercantilização dos nossos corpos. E independente da minha
opinião, não dá pra fugir de um problema que é real, que mata e está
historicamente sendo denunciado pelo movimento feminista.
A prostituição não deve ser "resolvida" com
apenas uma sacada, muito menos não será um projeto de lei, como o proposto pelo
Dep. Jean Wyllys, frívolo, com meia dúzia de artigos, que regulamenta o
mercado, xs empresárixs e despenaliza os cafetões. Projeto este que não transforma
a vida dessas mulheres, não lhe dá autonomia e dignidade; ignora a questão de
classe e a desigualdade racial. Tampouco será este que irá travar discussões de
outro modelo de economia, de trabalho e renda para essas mulheres.
Entendo que a urgência bate na porta, pois enquanto estamos
debatendo e descontruíndo idéias, são as mulheres em situações vulneráveis que
anseiam por amparo. Através desse projeto percebem a sensação de visibilidade,
visto que nos espaços de poder e de proposições de políticas públicas elas não
são representadas.
Para as mulheres negras carregadas no contexto histórico da
escravidão, que tornou comum o estupro dos senhores e a prostituição da escrava
para o lucro de seu “proprietário”, resta até os dias de hoje a sexualização,
coisificação sobre seu corpo, o lugar às margens da sociedade e por
consequência as mais vulneráveis e passíveis à prostituição, violência e
tráfico sexual. Não se iludam, não são elas as “putas de luxo”.
Enfim, renego a mendicância do efeito dessas ações,
incluindo-me como parte dessa luta, porque o feminismo é por todas as mulheres.
Não existem ilhas de liberdade, não há liberdade sexual quando nossas escolhas
são condicionadas pela norma masculina. Ser livre do machismo e do patriarcado
só será possível com a ruptura da opressão sobre qualquer uma de nós mulheres em
conjunto com a superação do capitalismo.
Para além dos ecos que se posicionam a favor ou contra a regulamentação,
pois vejo aí uma falta de um exercício dialético, há de se radicalizar enquanto
movimento feminista de compreender as correlações e estruturantes em que esse
debate está inserido. Contudo, temos o papel de provocar o Estado, que sabemos
que é engessado e burguês. Pensar em políticas de inclusão das mulheres
inseridas na lógica da prostituição, como também medidas de prevenção. Mudar a
vidas das mulheres passa pela ruptura sim, mas aí sem negar o processo de
revolução permanente, no qual medidas emancipatórias, afirmativas e de
transição são essenciais. Pra isso, as prostitutas devem estar nessa
construção, visto que são elas que vivem diariamente tal violência.
Viver sem violência é um direito de TODAS as mulheres.
Nenhum comentário:
Postar um comentário